A Cítara
Posição das mãos. Fonte: 5
Posição das mãos. Fonte: 5

A palavra Cítara é usada para designar instrumentos de corda cujas cordas se estendem inteiramente sobre a caixa de ressonância, o que inclui cítaras de várias origens, como o Kantele, da Finlândia, as chinesas Guzheng e Guqin, a japonesa Koto e a Tranh do Vietnã. Aqui, aborda-se um pouco sobre as Cítaras originárias do sul da Alemanha e Áustria.

A Cítara-concerto (Konzertzither) possui 5 cordas sobre um braço com 29 trastos e de 26 a 37 cordas livres, alcançando até cinco oitavas e meia. Toca-se pressionando as cordas de melodia com os dedos da mão esquerda e dedilhando-as com um anel colocado no polegar da mão direita. Os demais dedos da mão direita tocam as cordas livres. Usualmente, as 5 cordas com trastes são usadas para a melodia e as livres, para a harmonia.

Apesar de a aparência e nome lembrarem um instrumento muito antigo, a Cí­tara-concerto apenas atingiu a forma atual no final do séc. XIX.

Primórdios

Scheitholt. Fonte: 2
Scheitholt. Fonte: 2

A origem da atual Cí­tara remonta ao Monocórdio, originalmente uma caixa retangular com uma corda tracionada sobre um cavalete de madeira. Deste instrumento evoluiu a Scheitholt, no século XVI, uma cí­tara com algumas cordas sobre trastes para tocar interrompendo-as com os dedos, e outras livres, para serem apenas dedilhadas.

Kratzzither. Fonte: 2
Kratzzither. Fonte: 2

Em meados do século XVIII, se originou a Kratzzither, pelo aumento gradual da caixa de ressonância e adição de mais trastes à Scheitholt. No final do séc. XVIII, fez-se um esforço para modernizar o instrumento, em regiões pontuais de Salzburg (Áustria) e Mittenwald (Alemanha). As caixas começaram a ganhar formatos abaulados: as de Salzburg possuem um lado reto, enquanto as de Mittenwald possuíam simetria como dos violões. No séc. XVIII, eram encontradas até algumas Kratzzither com 3 cordas de melodia e de 8 a 12 livres, mas o número de trastes não passava de 14.

No fim do séc. XVIII, a Schlagzither era um instrumento ainda modesto e deficiente. A técnica era adequada para tocar em apenas 3 tons, e o braço, com apenas 14 trastes, era quase sempre diatônico e frequentemente tinha somente 3 cordas disponí­veis. A disposição das cordas livres e de baixo era completamente arbitrária.

Nesta época, a Cí­tara era tocada por camponeses nos momentos de lazer. Foi quando surgiu o primeiro virtuoso no instrumento, Johann Petzmayer (1803-1888), de Viena.

Schlagzither. Fonte: 2
Schlagzither. Fonte: 2
Forma de Mittenwald. Fonte: 2
Forma de Mittenwald. Fonte: 2

Numa de suas apresentações a cortes na Bavária, o Duque Maximiliano se encantou pelo instrumento, e contratou Petzmayer como professor. Juntos, fizeram turnês pela Europa, chegando ao Egito e Ásia Menor. Assim, a cítara ganhou popularidade nas cidades e mesmo entre a nobreza.

Padronização

Embora a cí­tara fosse bastante tocada, ainda não correspondia aos anseios dos músicos e compositores profissionais. Foi então que Nikolaus Weigel (1811-1878), de Munique, criou uma afinação padrão baseada no cí­rculo de quartas e quintas, que ele publicou primeiramente em seu método para Cí­tara de 1838. O número de cordas livres passou para 28. A primeira Cí­tara-concerto a utilizar esta afinação foi construí­da em 1862 por Max Amberger, em Munique.

Para que uma orquestra de Cí­taras tivesse alcance grande e consistente, a famí­lia do instrumento se expandiu. À Diskantzither - nome que se dá à Cí­tara-concerto com afinação comum - se juntou em 1851 a Altzither, mais comprida e afinada uma quarta abaixo. Em 1930, Adolf Meinel criou, em Markneukirchen, a Quintzither (uma quinta acima) e a Basszither (uma oitava abaixo). Veja aqui um diagrama comparando o alcance de cada uma aos instrumentos de um quarteto de cordas.

Há duas afinações padrão para a cítara, atualmente. A afinação normal é empregada pela maioria dos músicos e foi adotada em 1878. A afinação de Viena foi estabelecida e propagada por Carl J. F. Umlauf (1824-1902) em seu “Novo método completo teórico e prático para cítara de Viena” (1859), sendo sua principal característica a “corda de ajuda” sol-3 entre as demais cordas de melodia.

Difusão

Assim como Johann Petzmayer foi importante no surgimento da cítara como uma peça chave na propagação da cítara, posteriormente a popularidade continuou sendo função de grandes virtuosos como Alfons Bauer (1920-1997) e Rudi Knabl (1912-2001). Knabl, que iniciou aos 7 anos, gravou inúmeros discos e dominava um vasto repertório, que ia do barroco, passando por Beethoven e indo até o Jazz. Além disso, entre peças eruditas figura um solo de cítara de Contos dos bosques de Viena, uma das valsas mais conhecidas de Johann Strauss Jr.

Contudo, não restam dúvidas de que o tema do filme O Terceiro Homem (1949) foi a maior âncora para a cítara. O diretor Carol Reed, durante as gravações do filme, ao ouvir o virtuoso Anton Karas num café de Viena, convidou-o para compôr e interpretar, em solo, toda a trilha sonora do filme. Tido como um dos melhores filmes de todos os tempos (e o melhor inglês pelo British Film Institute), a trilha de Karas juntou-se ao cenário de uma Viena bombardeada e escura do pós-Guerra e ao excelente texto de Graham Greene num filme revolucionário para a época. Venceu o Oscar de melhor fotografia, foi indicado aos de melhor direção e montagem e levou a Palma de Ouro em Cannes.

Anton Karas, na época do filme, tinha 45 anos, e um estilo vigoroso de tocar, muito marcante na trilha do filme. Suas peças exigem muita agilidade e força nos dedos, e foi o principal diferencial para que a gravação tivesse o som inconfundível do filme. Após muitas gravações e turnês que sucederam o filme, abriu seu próprio restaurante em Viena em 1952, onde continuou tocando por bastante tempo. Faleceu em 1985, em Viena.

Novos formatos

Além das variações da cí­tara em relação à afinação, surgiram também variações na forma da cí­tara. Em 1877, Max Albert introduziu uma haste decorativa na parte superior do instrumento, criando a Harfenzither (cí­tara-harpa), que possui de 40 a 42 cordas.

Em 1970, Ernst Volkmann introduziu a Psalterzither, uma espécie de fusão da cítara com o saltério, que foi uma grande inovação na acústica do instrumento.

Psalterzither de Kurt Hartwig, Munique
Psalterzither
Johannes Schubert tocando uma Cítara de Klemens Kleitsch
Cítara de Klemens Kleitsch

Trabalhando em cooperação com Georg Glasl, da faculdade de música de Munique, Klemens Kleitsch construiu uma cítara com a finalidade de melhorar a sonoridade dos baixos, aumentando as dimensões e deslocando a ponte do lado esquerdo para cima da caixa de ressonância.

Fontes e mais informações

  1. Brandlmeier, Josef: Handbuch der Zither I - Die Geschichte des Instruments und der Kunst des Zitherspiels, Musikverlag Richard Grünwald München, 1963.
  2. História da cítara na Studia Instrumentorum Musicae
  3. Artigo sobre a Psalterzither em Zitherist International
  4. História da cítara na Orquestra de cítaras de Bochum
  5. Artigo sobre a cítara na Wikipedia
  6. Crítica de O Terceiro Homem

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